quarta-feira, 13 de outubro de 2021

PARA SER PÁTRIA AMADA NÃO PODE SER PÁTRIA ARMADA!

 


'Para ser pátria amada não pode ser pátria armada', diz arcebispo de Aparecida em sermão.
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Para ser pátria amada não pode ser pátria armada', diz arcebispo de Aparecida em sermão.



O arcebispo de Aparecida (SP), Dom Orlando Brandes, afirmou nesta terça-feira (12) que "para ser pátria amada não pode ser pátria armada" durante a missa das 9h, a principal do dia no santuário (assista ao vídeo acima).



"Para ser pátria amada, seja uma pátria sem ódio. Para ser pátria amada, uma república sem mentira e sem fake news. Pátria amada sem corrupção. E pátria amada com fraternidade. Todos irmãos construindo a grande família brasileira", disse o religioso durante o sermão

"Pátria amada" é o slogan do governo de Jair Bolsonaro. Brandes não o citou, mas o presidente é favorável ao armamento da população e é investigado em inquérito sobre disseminação de informações falsas que tramita no Supremo Tribunal Federal (STF).


No sermão, o Brandes lamentou as mais de 600 mil mortes por Covid e defendeu a vacina e a ciência – ao longo da pandemia, Bolsonaro defendeu medicamentos comprovadamente ineficazes contra a doença e questionou a eficácia das vacinas.


"Mãe Aparecida, muito obrigado porque na pandemia a senhora foi consoladora, conselheira, mestra, companheira e guia do povo brasileiro que hoje te agradece de coração porque vacina sim, ciência sim e Nossa Senhora Aparecida junto salvando o povo brasileiro."

Os ministros da Cidadania, João Roma, e da Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes, acompanharam a cerimônia durante a manhã.


Brandes citou, ainda, a fome, lembrando o caso de brasileiros que buscam restos de carne em ossos pra se alimentar. E pediu união.

"Quero pedir que cada um de nós abrace o Brasil. Abrace o nosso povo. A começar pelo povo mais original, vamos abraçar os nossos índios, primeiro povo dessa terra. Vamos abraçar os negros, que logo vieram fazer parte desta terra. Vamos abraçar os europeus que aqui chegaram."

Questionado se o sermão era um recado para Bolsonaro, Brandes disse que que era uma mensagem "para todos os brasileiros".
"Respeitamos as autoridades mesmo discordando e falamos com a doutrina da igreja. Nós estamos quebrando a aliança com o ódio e a corrupção e para confirmarmos a nossa República e a democracia."
Missa das 9h no Dia da Padroeira foi celebrada por Dom Orlando Brandes, Arcebispo de Aparecida — Foto: Poliana Casemiro/ g1

Missa das 9h no Dia da Padroeira foi celebrada por Dom Orlando Brandes, Arcebispo de Aparecida — Foto: Poliana Casemiro/ g1

Histórico de críticas

Em 2020, Dom Orlando Brandes criticou a volta da impunidade e também as queimadas em biomas como Amazônia e Pantanal.

Já em 2019, o sermão criticou o "dragão do tradicionalismo" e disse que a "direita é violenta e injusta".
Presidente Jair Bolsonaro visita Santuário Nacional no Dia da Padroeira
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Presidente Jair Bolsonaro visita Santuário Nacional no Dia da Padroeira 

Visita de Bolsonaro

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) chegou ao Santuário de Aparecida às 13h30 para a missa das 14h. Ele estava em Guarujá (SP) desde sexta-feira (8). Muitos romeiros se aglomeraram para acompanhar o presidente, que foi recebido com recebido com aplausos e algumas vaias.

Durante a missa, Bolsonaro usou máscara de proteção contra Covid e só a retirou para fazer uma leitura. O presidente comungou e participou da consagração da imagem de Nossa Senhora Aparecida.

Depois do encerramento da missa, o presidente subiu no altar e tirou uma foto com o arcebispo Dom Orlando Brandes usando máscara. Na sequência, retirou o item de proteção e posou para uma nova foto com os ministros da Cidadania, João Roma, da Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes, e o padre Américo Dalbelo.
Durante missa em Aparecida, presidente Bolsonaro retirou a máscara de proteção contra Covid para fazer leitura — Foto: Gustavo Marcelino

Durante missa em Aparecida, presidente Bolsonaro retirou a máscara de proteção contra Covid para fazer leitura — Foto: Gustavo Marcelino

Acostamento da Via Dutra fica lotado de romeiros a caminho de Aparecida do Norte
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Acostamento da Via Dutra fica lotado de romeiros a caminho de Aparecida do Norte.26 vds




Fonte: G1Globo
Disponível em:
<https://g1.globo.com/sp/vale-do-paraiba-regiao/festa-da-padroeira/2021/noticia/2021/10/12/dia-de-nossa-senhora-sermao-dom-orlando-brandes-arcebispo-de-aparecida.ghtml>
Acesso :13 de Outubro de 2021.

terça-feira, 12 de outubro de 2021

Radioagência Nacional faz 16 anos com 160 mil downloads em um ano

 



São cinco horas da manhã em São Luís (MA). Adilson Sousa,de 48 anos, já está posicionado em frente ao microfone do estúdio da Rádio Timbira (1290 AM) para apresentar A voz do campo. 








A emissora fica 24 horas no ar. Outra que também transmite sem parar é a rádio educativa Joinville Cultural (105,1 FM), emissora que alcança um território de um milhão e meio de habitantes, de cerca de dez cidades da região. No final do dia, a noite chega com o Repórter Joinville.O que há em comum entre as rádios maranhense e catarinense (separadas por 3,5 mil quilômetros de distância), e mais de outras 19 mil emissoras e formadores de opinião pelo país é que todas tocam notícias e reportagens da Radioagência Nacional, veículo público da Empresa Brasil de Comunicação (EBC).
Mais de 13 mil downloads por mês

De setembro do ano passado ao mesmo mês de 2021, foram mais de 160 mil as vezes em que as rádios baixaram o conteúdo da equipe de radiojornalismo da Rádio Nacional, o que é equivalente a 13,5 mil downloads por mês. O alcance desse material atinge capitais e interior, via computadores, celulares ou antigos rádios de pilha.

Segundo o gerente de radiodifusão da Joinville Cultural, Paulo Marttini, o conteúdo da Radioagência tem papel fundamental na prestação de serviços para os ouvintes da região. 


"Este apoio da Radioagência gera comodidade e segurança técnica de materiais via on-line para download, o que garante rapidez e certeza no fechamento de edições de diversos programas em que este qualificado material é utilizado”.



Rádio Educativa de Joinville
Rádio Educativa de Joinville tem estrutura enxuta e 24 horas de programação com apoio da Radioagência Nacional. Foto: Divulgação



Ouça trecho de entrevista com Paulo Marttini:

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Ele cita que, além da “profundidade de informações e a qualidade das gravações dos áudios”, a Radioagência proporciona integração para radiodifusão pública de forma estratégica, com “conteúdo fidedigno”. “Dessa forma, aqui recebemos matérias sobre o Festival de Parintins, e enviamos matérias sobre o Festival de Dança de Joinville, tido pelo Guinness Book como o maior do mundo”, diz Marttini.

Aliás, pelo interior brasileiro, a Radioagência viabiliza a comunicação e o conhecimento. Como ocorre na cidade de Morrinhos (GO): ali, o jornalista Leonardo Medeiros, de 28 anos, também acorda cedo. Tem o cotidiano às voltas com a informação, com quatro programas jornalísticos e notícias de três em três músicas na Rádio Boas Novas.

Moreira salienta que, para a Rádio Boas Novas (98,7 FM), os conteúdos da Radioagência permitem a circulação das informações em elevada qualidade. “Rádios comunitárias teriam dificuldade de se manter (sem a Radioagência)”. A rádio goiana, que chega a um público de 40 mil pessoas, costuma reproduzir matérias de temas como economia, com foco na população rural. “Fazer rádio é apaixonante”.


Rádio Morrinhos
O jornalista Leonardo Moreira, em Morrinhos (GO), explica que a qualidade dos produtos que chegam viabiliza programação. Foto: Divulgação


Na Rádio Sacramento (100,3 FM), na cidade mineira que tem o mesmo nome, o pilar também é o jornalismo. Dois jornais pela manhã, a partir das 8h30, e outros dois pela tarde. Vinte e quatro horas no ar. Equipe de plantão é uma constante na rádio que vai completar 40 anos no dia 31, diz o gerente Luis Antônio Batista. Entre os conteúdos baixados e tocados na programação da Rádio Sacramento, matérias ligadas à saúde, esporte e agricultura.

Assim também acontece em Altamira, a mais de 800 quilômetros de Belém, no sul do estado do Pará. Sintonizados na Nativa FM (104,9 FM), cerca de 120 mil pessoas esperam as novidades. “Aproveito muito tudo o que os veículos da EBC disponibilizam, porque têm teor educativo”, afirma o diretor da emissora, Domingos de Morais, de 61 anos. O fato dos materiais serem disponibilizados gratuitamente às emissoras é motivo de alívio.


Rádio Nativa
Rádio Nativa: "produzir notícia é muito caro", diz diretor. Foto: Divulgação


Produzir notícia é muito caro. A Radioagência envia para nós conteúdos de interesse nacional diariamente, e em qualidade”. O veículo da EBC é contemporâneo da rádio altamirense, que vai completar 15 anos. “Todo esse tempo utilizamos os materiais e foram importantes para sabermos, por exemplo, informações da construção da barragem de Belo Monte”

Em São Luís, a Timbira (1290 AM) vai completar 80 anos, com viés de rádio educativa. O foco está no jornalismo de prestação de serviço.


 “Graças à Radioagência e à possibilidade de baixar o material, conseguimos completar a grade de programação com muitos conteúdos de interesse da população nordestina”, diz o apresentador Adilson Sousa. Cinquenta pessoas trabalham na emissora. Como tantos outros profissionais de rádio, ligados nas ondas invisíveis e também nas novidades que não param de chegar pelo computador.

*colaborou Simone Magalhães



Fonte: Agência Brasil. 
Disponível em:
<https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2021-10/radioagencia-16-anos-noticias-foram-baixadas-160-mil-vezes-em-1-ano>
Acesso: 12 de Outubro de 2021.

quarta-feira, 6 de outubro de 2021

Luciano Hang, o empresário patriota que dribla os impostos no Brasil






Investigação feita pelo EL PAÍS nos arquivos do ‘Pandora Papers’ revelou que o empresário manteve por quase vinte anos uma empresa em um paraíso fiscal no valor de 112,6 milhões de dólares.
O empresário bilionário brasileiro Luciano Hang (Brusque, 58 anos) se define como “patriota que luta pelo Brasil”
em sua conta no Instagram. Dono de uma fortuna de 14,3 bilhões de reais, segundo a revista Forbes, Hang orgulha-se do número de empregos que gera no Brasil por meio de sua rede varejista, a Havan. Também é dono de agência de publicidade, postos de gasolina e até usina hidrelétrica. Hang adota um guarda-roupa verde e amarelo espalhafatoso para provar seu amor à pátria. O empresário só não se veste de patriota quando o assunto é o retorno que os impostos podem proporcionar ao país.


Uma investigação feita pelo EL PAÍS e outros veículos brasileiros nos arquivos do Pandora Papers revelou que o empresário manteve por quase vinte anos uma empresa em um paraíso fiscal, no valor de 112,6 milhões de dólares, conforme constava em um extrato de outubro de 2018 (cerca de 416 milhões de reais na época). Por todo esse tempo, Hang não comunicou ao Governo brasileiro sobre a existência de sua empresa, o que configura crime de sonegação fiscal. Os arquivos do Pandora Papers reúnem 11,9 milhões de documentos confidenciais de 14 sociedades de advogados do Caribe, Singapura, Hong Kong, Chipre, dentre outros paraísos fiscais ao redor do mundo.


A empresa de Hang no exterior atende pelo simpático nome de Abigail Worldwide. É por meio dela que o dono da rede de varejo Havan faz seus investimentos no Brasil e em outros países, com uma vantagem que poucos têm: pagar pouco ou quase nada de impostos. Isso porque Abigail está registrada nas Ilhas Virgens Britânicas, um paraíso fiscal. Ao todo, foram quase vinte anos economizando em tributos que ele pagaria se tivesse esse mesmo dinheiro aplicado no Brasil, que poderiam chegar a até 34%, dependendo da renda. A Receita Federal brasileira considera paraísos fiscais os locais que tributam a renda com alíquota inferior a 20% ou cuja legislação protege o sigilo sobre a composição societária das empresas. Na lista de mais de 60 países que respondem a esses critérios estão as Ilhas Virgens Britânicas, onde a Abigail foi aberta.

Os investimentos da Abigail estão principalmente em ações e títulos de dívida (debêntures) de empresas, muitas delas brasileiras, como Vale, Petrobras e Natura.

Mas se Hang é exibicionista em tudo que o diz respeito à Havan, o mesmo não se pode dizer de sua relação com a Abigail. Embora ela esteja com o empresário desde 1999, só foi apresentada ao Brasil em 2020, quando Hang decidiu lançar um ambicioso plano de abertura de capital da Havan, em plena pandemia. Foi nesse momento que os investidores brasileiros souberam que Abigail integrava o patrimônio da varejista Havan desde 31 de outubro de 2016. Com um dote atualizado em 478,5 milhões de reais (conforme a cotação do dólar de junho de 2020), como consta no prospecto de abertura para a Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

compradas por pessoas que têm uma certa pressa de ter uma empresa no exterior — para fechar acordos ou receber pagamentos com clientes estrangeiros, por exemplo —, pois são constituídas num prazo mínimo, em até 48 horas. Mas também são alvo de quem precisa dar uma cara de antiguidade ao seu negócio, já que algumas estão abertas há anos. Era o caso da Abigail, que permaneceu por três anos na prateleira. Foi aberta em 07 de outubro de 1996 em outro paraíso fiscal, na ilha de São Cristóvão e Neves, já com esse nome de origem hebraico, que batizou mulheres especialmente nos anos 50 no Brasil.

A Abigail cruzou o caminho de Hang em 1999, quando os negócios da Havan começaram a ter problemas na Receita Federal. A intermediadora da negociação de compra da offshore foi a Trident Trust, companhia que tem braços em diversos paraísos fiscais e oferece soluções discretas para pessoas ou organizações que querem manter suas atividades ocultas, segundo fontes do mercado.

Na época em que Hang comprou a Abigail, ele era investigado por suspeita de sonegação de impostos na Havan. A rede crescia a olhos vistos no mercado brasileiro. Inaugurada em 1986 numa saleta de 45 metros quadrados, no pequeno município de Brusque, no sul do país, a Havan se transformou na rede que hoje contabiliza 163 lojas físicas, em 18 dos 27 estados brasileiros. Soma mais de 22.000 colaboradores.

Uma importação ilegal chamou a atenção do Ministério Público de Santa Catarina, que passou a monitorar o empresário desde o início dos anos 1990, conforme explica a procuradora da República Ela Wiecko. À época, Wiecko era subprocuradora do MP de Santa Catarina e integrava a equipe que investigava os movimentos de Hang. Havia indícios de que a empresa não emitia notas por todos os produtos que vendia em suas lojas. O lucro dessa operação — ou seja, o dinheiro não declarado ao fisco — poderia estar seguindo para o exterior, o que poderia explicar a origem do caixa da Abigail. No entanto, não é possível saber de onde surgiu o dinheiro investido. A reportagem procurou o empresário, que não respondeu a esses questionamentos.
Cerco da Justiça

Luciano Hang chegou a responder na Justiça pela acusação de ter simulado vendas da Havan, mentido em seus livros contábeis, falsificado notas, fraudado o fisco e criado contratos sociais “que não correspondiam à realidade”, de acordo com os autos. Após uma investigação iniciada em 1999, foi autuado em 117 milhões de reais pela Receita Federal e em 10 milhões de reais pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Porém, escapou por meio de um programa de refinanciamento que permitiu que pagasse a dívida de quase 130 milhões de reais na época, em suaves prestações.

Esse acordo se tornou parte do folclore jurídico, já que seriam necessários 115 anos para que o empresário quitasse sua dívida com o fisco. A ação penal acabou sendo considerada nula após a 1a Vara da Justiça Federal em Itajaí julgar a denúncia inepta em 2008 por falta de provas. Ao EL PAÍS, Wiecko afirma que “é possível afirmar que a Havan estava enviando dinheiro para o exterior” naquela época. Em outros processos também por evasão de impostos, Hang chegou a ser condenado à prisão. Após sucessivos recursos, no entanto, escapou porque o tempo do processo prescreveu na Justiça.

Embora o cerco se fechasse sobre os negócios do empresário, o MP nunca detectou a existência da Abigail no paraíso fiscal. Foi somente ao flertar com o mercado de capitais, quando protocolou a abertura de capital da Havan, que Hang tomou o cuidado de apresentar a Abigail para a Receita Federal. Ele se beneficiou da lei de repatriação de recursos, sancionada pela ex-presidenta Dilma Rousseff (PT) em 2016. A lei ofereceu as condições mais favoráveis possíveis para quem tinha dinheiro não declarado no exterior e queria legalizá-lo: redução de taxas e multas, que até então poderiam chegar a até 150% do valor não declarado, para apenas 30% sobre o montante total.

Dados do Banco Central mostram que o programa de repatriação fez com que dobrasse o número de pessoas que declararam possuir dinheiro no exterior. Nessa operação, ingressaram no país cerca de 10 bilhões de dólares que viviam à sombra da legalidade. O saldo da Abigail fazia parte desse montante. Seus anos de ostracismo, porém, pesaram na avaliação do mercado diante das ambições de Hang de abrir o capital da rede fundada por ele.

Ainda que no papel a Havan apresente bons resultados — o balanço da empresa anuncia que faturou 10,5 bilhões de reais em 2020, com crescimento de 16,6% do lucro líquido — , isso não convenceu potenciais investidores, que analisaram os números da empresa na sua primeira tentativa de abertura de capital, em outubro do ano passado. Vários problemas foram apontados, a começar pela aparição repentina de Abigail.

A empresa levantou dúvidas. Por qual razão incorporar uma companhia que mantém recursos tão altos em um paraíso fiscal? Por que investir em outros negócios que não sua própria empresa? À reportagem, Hang afirmou que “a Havan realiza investimentos diversificados e os mesmos encontram-se abarcados pela legislação brasileira. Não havendo nenhum tipo de irregularidade nisso”. Por meio de sua assessoria de imprensa, o empresário também disse que “como a empresa promove importações, os investimentos em moeda estrangeira proporcionam uma cobertura natural para a empresa, trazendo proteção para o negócio, tendo em vista a oscilação do câmbio mundial”.

Em um momento em que as instituições buscam cumprir princípios cada vez mais rígidos de boa governança, essas dúvidas acenderam um alerta no mercado. O empresário percebeu o incômodo dos investidores, que não aceitaram avaliar a Havan em 100 bilhões de reais, como ele esperava. E acabou desistindo de levar adiante, ao menos por enquanto, a ideia de ter sua empresa cotada na bolsa. Também pesou contra Hang as ações na Justiça mencionadas no próprio plano de abertura de capital. O Ministério Público do Trabalho acusa o empresário de ter coagido seus funcionários a votarem em Jair Bolsonaro em 2018. Aos investidores, a Havan informou que, caso perca o processo, terá de pagar 25 milhões de reais.

Aos 3,8 milhões de seguidores nas redes sociais, porém, Hang faz marketing do empresário bem-sucedido. “Criar emprego, gerar desenvolvimento e trazer alegria para as pessoas, não tem preço”, diz em uma postagem. “O Brasil que queremos só depende de nós”, estampa a camiseta verde e amarela adotada como uniforme por Hang. “Ser empreendedor no Brasil é ser herói”, ele diz em outra publicação, que leva uma foto dele mesmo vestido de super-herói.

O heroísmo de Hang inclui a intimidade com o poder. O empresário propaga as pautas bolsonaristas, como a defesa da cloroquina, o voto impresso, e a falta de uso de máscara. É também alvo de investigação no Supremo Tribunal no inquérito sobre as fake news, para apurar a existência de uma rede de propagação de notícias falsas com o objetivo de realizar ataques virtuais e desestabilizar a democracia do país. Também foi parar na CPI da Pandemia por supostamente fazer do gabinete paralelo da Saúde, que orientou Bolsonaro no combate à pandemia, acusado de financiar o movimento contra as medidas adotadas por governadores e prefeitos para conter o avanço do vírus. Chegou a ser questionado pelo relator Renan Calheiros, sobre contas no exterior, o que ele admitiu, mas negou financiar sites de notícias falsas. “Temos contas no exterior, temos offshore, deve ser umas duas ou três, declaradas na Receita Federal, e auditadas”, disse o empresário durante a audiência.

Ele responde ainda no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a uma ação por ter realizado supostos atos de abuso de poder econômico, fraude e ilicitude em captação e gastos de campanha nas eleições de 2018. Hang é acusado de ter financiado disparos de mensagens de WhatsApp em massa para favorecer Bolsonaro. Também fez o chamado “impulsionamento” no Facebook: investiu usando uma ferramenta da própria rede social para que o alcance de sua mensagem pedindo votos para Bolsonaro fosse turbinado, prática considerada ilegal pelo TSE. Hang confirmou à CPI ter impulsionado conteúdo pró-Bolsonaro nas eleições, como mostrou reportagem do EL PAÍS na época. Disse, porém, que não sabia que aquilo era proibido. “Tiramos do ar e pagamos multa”, afirmou.

Na minuta de abertura de capital da Havan, o empresário é colocado como um dos fatores de risco de seu próprio negócio. Ali, é reconhecido que a empresa “poderá ter sua reputação impactada de forma adversa em caso de eventual condenação do senhor Luciano Hang”.




Na investigação do Brasil participaram: Marina Rossi e Regiane Oliveira (EL PAÍS); Anna Beatriz Anjos, Alice Maciel, Yolanda Pires, Raphaela Ribeiro, Ethel Rudnitzki e Natalia Viana (Agência Pública); Guilherme Amado e Lucas Marchesini (Metrópoes); José Roberto Toledo, Ana Clara Costa, Fernanda da Escóssia, Allan de Abreu (Piauí); Fernando Rodrigues, Mario Cesar Carvalho, Guilherme Waltenberg, Tiago Mali, Nicolas Iory, Marcelo Damato e Brunno Kono (Poder360).



Fonte: El País. 
Disponível em:
Acesso em:06 de outubro 2021.